Contudo, a obra não se deixa dominar por esse tom amargo. Há, também, vidas, sorrisos, sonhos e conquistas. É uma sátira, como o próprio justifica. João Paulo Videira usa, aqui, o seu poder de narrador para partilhar o percurso de personagens-tipo, desafiando o leitor para um debate sobre o presente e o futuro da cidade e das pessoas que compõem a sua paisagem humana. E a razão é simples: “O autor foi tomado pela cidade e pelas magníficas personagens que oferece e deixou-se embalar pelas palavras que marcam a música do seu quotidiano. João Paulo Videira vive em Maputo. Reencontrou-se”, lê-se na sua nota biográfica.
Segundo o autor, para escrever o livro foi necessário “Fazer um esforço, despir muitas camisolas, muitas máscaras, e foi preciso ter uma humildade tremenda para ir ao encontro dessa moçambicanidade”, explicou. Para o também docente de Português na Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM-CELP), o livro não tem nada de verdadeiro e não tem nada de falso. “Tudo é romanceado, é ficcionado. Mas todas aquelas personagens, por mais loucas que possam parecer, têm alguém que está na base da sua composição. E esse alguém pode ser uma pessoa só, duas, três, quatro, cinco pessoas. Enfim, estamos perante um livro moçambicano. Não sei se é o mais moçambicano, mas com certeza é o menos europeu que já escrevi”, disse.
O autor evidencia, na obra, o seu espírito protetor sobre a figura feminina, não como feminista, mas como alguém que respeita e incentiva a igualdade do género. E explica a revisora da obra, Olga Pires: “Todas as figuras femininas de destaque no livro de João Paulo são figuras de força. Aliás, já era assim no último romance”.
Com 244 páginas, “Quem Lixou Isidro Castigo?” narra, sucessivamente, as vivências dos Maputenses de forma conseguida, apoiando-se, sempre, nos dialetos, na linguagem informal, simples e coloquial, conforme se torna útil para distinguir as personagens e respeitar o contexto socioeconómico. Por isso, segundo escreveu na nota, o livro é dedicado “A Moçambique e aos moçambicanos. Às pessoas que passam na rua. Aos churrascos de quintal. Aos almoços que começam às 11h e acabam às 23h. Às doces conjeturas e conspirações que apimentam as nossas vidas. A África”.
Estiveram no lançamento da obra membros da Comissão Administrativa Provisória da EPM – CELP, o Senhor Embaixador de Portugal em Moçambique, António Costa Moura, o Diretor do Centro Cultural Português, Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, João Pignatelli, o administrador do BCI, instituição patrocinadora da edição, Luís Aguiar, familiares, amigos e professores da EPM-CELP.